Vocalização das aves é o resultado do esforço coletivo de todos os usuários que inseriram e inserem valiosas informações sobre as manifestações sonoras das aves, e que beneficiam não somente os demais usuários, mas toda a comunidade de observadores de aves, ornitólogos e visitantes em geral. A todos os que dispensaram um pouco do seu tempo para compartilhar o seu conhecimento, muito obrigado.
A vocalização das aves está entre as manifestações da natureza que mais fascinam o ser humano. Não raro vemos no cancioneiro popular a menção sobre o canto das aves antropomorfizados em beleza, saudade e tristeza. Muito além do encantamento que causa ao ser humano, a vocalização tem para as aves o mesmo papel que para nós tem a fala, sendo veículo de interação social, alerta e cortejo. Aprender sobre esse comportamento das aves torna-se fundamental para quem busca identificar de forma mais precisa os indivíduos que observa, além de aumentar muito o fascínio que sobre nós elas exercem.
Imagem de Renan Strauss
A siringe faz parte do aparelho respiratório das aves, sendo um segmento da traqueia localizado na sua extremidade inferior (final), na bifurcação dos brônquios, e é responsável pelo controle e produção da vocalização. As modificações que esse órgão apresenta estão diretamente ligadas ao grande repertório de vozes das aves. Muito poucas aves não possuem siringe, a exemplo dos urubus (família Cathartidae), que, apesar disso, produzem sons que se assemelham a um forte bufar.
A bioacústica é um ramo da ciência dedicado a estudar e entender as diversas manifestações sonoras produzidas pelos seres vivos. Os sons emitidos pelos animais representam sinais de comunicação importantes para a sua sobrevivência. A bioacústica está profundamente ligada aos estudos ornitológicos, sendo a vocalização e as demais ações sonoras das aves fatores preponderantes para a concreta analise de seu comportamento.
As ferramentas mais comuns e que auxiliam na obtenção das manifestações sonoras das aves são os gravadores. Através das amostras colhidas em campo pode-se chegar a obtenção de importantes informações sobre a espécie, seus hábitos e relações com o meio. Para análises mais aprofundadas hoje estão disponíveis uma gama de ferramentas como softwares que permitem uma análise mais adequada do arquivo de áudio através dos sonogramas ou representações visuais do som.
O estudo da bioacústica alinhado aos sofisticados sistemas de analise laboratorial tem conseguido importantes conquistas na diferenciação de espécies gêmeas, em que não há distinção de outras características que facilmente as distinguiriam como a plumagem.
As aves não cantam porque estão felizes, tampouco gorjeiam por estar tristes. Quando uma ave vocaliza ela está agindo de forma a interagir-se com o meio. A vocalização é um fator fisiológico diretamente ligado a fatores comportamentais não estando diretamente relacionados a fatores intraespecíficos e interespecífico, em que os indivíduos se comunicam com os demais da sua espécie ou do seu grupo social. Um grito de alarme é um fator de demonstração de perigo do indivíduo para ele mesmo, contudo, a “compreensão” que os demais indivíduos têm dessa vocalização faz com que esses também se coloquem em estado de alerta. O interesse do macho em atrair a fêmea pelo canto está diretamente ligado à sua necessidade de procriação e perpetuação de sua carga genética (o mesmo motivo que leva a fêmea a escolher o macho que melhor manifeste o seu canto, amostra de que copulando com ele a sua ninhada terá maiores chances de sobrevivência)
Através do timbre da vocalização é possível muitas vezes fazer a distinção da espécie ou família. De um modo geral as aves da família Emberizidae têm uma vocalização aguda ao passo que os Psittacidae caracterizam-se por um vocal alto e estridente. É importante sempre em que se avistar uma ave procurar escutar-lhe a vocalização e compará-lo com outras da família, assim, através do comparativo será possível se concluir que elas têm muitas vezes em comum o timbre de voz.
O canto é a mais característica manifestação sonora das aves. Está ligado à demarcação de território e ao cortejo. O canto é geralmente bem elaborado, sendo muitas vezes uma composição de complexas notas e tons, dando para quem ouve um verdadeiro espetáculo sonoro.
Exemplos de canto
A vocalização conhecida como chamado ou apelo configura-se como um som de alarme e interação social entre os indivíduos. É complexo defini-lo dentro dos conceitos de intensidade ou tempo de execução, embora em sua maioria se caracterize por serem curtos e repetitivos, graves quando em momentos agonísticos como situações de perigo ou estresse e agudos quando em momentos de convivência mais intimista como na relação entre pais e filhos e na relação de bando (embora não seja uma regra aplicável a todas as espécies).
As aves se utilizam desse tipo de vocalização em situações diversas do seu cotidiano como na presença de uma possível ameaça, na localização do parceiro ou bando e na alimentação. Ninhegos ou jovens recém saídos dos ninhos estão vistos constantemente emitindo sons solicitando dos pais o alimento ou demonstrando para eles a sua localização.
A interação entre indivíduos que se associam exclusivamente em bandos demonstra uma gama bastante ampla e complexa de chamados e apelos. Ao observar um bando exclusivista - como de anus-brancos - nota-se que são emitidos uma enorme gama de sons, cada um sendo uma informação compreensível aos indivíduos envolvidos.
Exemplos de chamado ou apelo:
Também chamado de duetístico, trata-se de um tipo de vocalização no qual os dois indivíduos do casal cantam alternadamente de maneira que pareçam um só. Em princípio, pode ser em resposta ao chamado de um outro indivíduo, mas em alguns casos os duetos são tão bem coordenados que parece uma canção temporária. O dueto vocal tem sido observado em uma ampla gama de famílias de aves, dentre elas a das corujas e dos papagaios. É bastante comum o dueto vocal no casal de joão-de-barro (Furnarius rufus).
Exemplos de dueto vocal:
Os chamados cantos da madrugada são aqueles emitidos normalmente por aves noturnas mas também por aquelas de hábitos diurnos. Nas aves noturnas obviamente estão ligados ao horário biológico de maior atividade, nas aves diurnas estão associados normalmente ao período reprodutivo. Aves normalmente tímidas durante o dia ou que se esmeram para passar despercebidas aproveitam o horário noturno para emitirem seus cantos com maior intensidade, como é o caso do mineirinho. Outros estudos associam essa vocalização com o ensino dos filhotes. Como os predadores comuns dos ninhegos ou recém saídos dos ninhos estão em seu momento de repouso os pais se aproveitam desse horário para iniciá-los na arte da vocalização. Outra hipótese sustentada é a de que cantar de madrugada serve para confundir os predadores.
Exemplos de canto de madrugada
É sabido que que nas aves grande parte das espécies as suas fêmeas não cantam e passam quase sempre desapercebidas, embora mesmo com tanta discrepância elas emitem tipos distintos de vocalização para se comunicar com os seus parceiros ou filhotes. Mas, e as aves que não vocalizam?
Na verdade torna-se bastante complexo afirmar que alguma espécie de ave não vocaliza. Entendendo-se a vocalização como um exercício apenas da siringe mesmo aqueles que tem esse órgão pouco desenvolvido se valem de emissões sonoras características como grunhidos ou bufadas.
De uma forma mais abrangente, estendendo-se o conceito de vocalização para todas as manifestações sonoras produzidas pelas aves desassociadas da siringe - como o bater de asas e o tamborilar, que são manifestações associadas à comunicação - podemos afirmar que, embora a discrepância de algumas espécies, todas de alguma forma executam vocalização.Também chamadas de música instrumental, essas manifestações têm papel importante para diversas espécies, principalmente em rituais de acasalamento. Os sons provindos dessas manifestações, que costumam ser muito característicos, são importantes na identificação.
O bater de asas é uma manifestação sonora que ocorre geralmente pelo atrito com o ar e mais raramente por fricção. É comum ouvi-lo quando as aves levantam voo ou quando querem se manifestar agonisticamente - na atração ou repulsão de outro indivíduo denodando galanteio ou ameaça. Conforme o formato da asa essa sonoridade tem características diferentes de espécie para espécie. Uma das aves comuns em grande parte do Brasil e que é facilmente identificada pelo forte som chocalhado produzido pelas asas é a fogo-apagou (Columbina squammata). Essa manifestação sonora, audível especialmente quando a ave levanta voo, é tão característica que um dos nomes populares da espécie é rola-cascavel.
Exemplos de bater de asas
| fogo-apagou | jacu-de-spix (Penelope jacquacu) | anambé-de-peito-roxo (Cotinga cotinga) |
|---|---|---|
| urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) | exemplo | exemplo |
A aerodinâmica das asas está diretamente ligada aos hábitos de sobrevivência das aves. O bater de asas pode denunciar a presença do indivíduo no ambiente e, por isso, a adaptação ao voo silencioso se mostra uma ferramenta vital, principalmente para os caçadores noturnos. Strigiformes e Caprimulgiformes têm na surpresa do voar sem fazer barulho uma arma letal de caça.
Nos Strigiformes as extremidades das asas apresentam penas dispostas de forma não alinhada, com intervalos entre uma e outra, como se fossem chanfraduras. Cada uma dessas penas tem o que os ornitólogos chamam de ”dentadura”: a borda também chanfrada, com as barbas separadas, parecendo minúsculos dentes. Quando a coruja voa, o ar flui livremente por essas chanfraduras e, na falta de impacto, não produz ruído. Assim, em uma situação de caça a presa será surpreendida por um ataque eficiente e, na maioria das vezes, bem sucedido.Exemplos de tamborilar ou bater de bico
| pica-pau-anão-dourado (Picumnus aurifrons Pelzeln) | pica-pau-rei (Campephilus robustus) | pica-pau-amarelo (Celeus flavus) |
|---|---|---|
| pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos) | benedito-de-testa-amarela (Melanerpes flavifrons) | bate-bico (Phleocryptes melanops) |
É chamada onomatopeia a definição dada a um determinado objeto ou ser conforme uma característica geralmente sonora que produz. Assim, bem-te-vi, quero-quero, coró-coró, quem-te-vestiu são aves que foram nomeadas de acordo com a vocalização que emitem; ou seja, são nomes onomatopaicos. A nomeação popular por interpretação onomatopaica torna-se óbvia partindo-se do ponto de vista de que a vocalização é, sem dúvida, a mais representativa manifestação das aves, estando o nativo mais atento a essa ação e dando-lhe inclusive contornos antropomórficos. Porém, pode gerar situações como a do Euphonia chlorotica, que, para o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) é fim-fim devido a sua vocalização, que é interpretada em outros locais como vim-vim, fi-fi, vem-vem e até mesmo puvi. Vale salientar que, para o observador de aves, é necessário entender essas variantes regionais, principalmente ao visitar locais diferentes dos a que está acostumado. Muitas vezes uma ave bastante comum pelo pseudônimo que tem na localidade pode passar por uma ave rara e vice-versa.
Exemplos de vocalizações onomatopaicas
| bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) | quem-te-vestiu (Poospiza nigrorufa) | caracará (Caracara plancus) |
|---|---|---|
| curicaca (Theristicus caudatus) | fogo-apagou (Columbina squammata) | joão-corta-pau (Antrostomus rufus) |
A imitação de vozes de espécies alheias é comum entre os Oscines brasileiros, sobretudo nos emberizíneos, mas também existe entre os icteríneos, turdíneos, mimídeos, corvídeos, psitacídeos, cuculídeos e ranfastídeos. Provavelmente, a imitação dos chamados de outras espécies é uma forma de as aves aumentarem seu repertório vocal e se tornarem mais atrativas para os parceiros. Esse é um atributo relevante pois, como o macho leva algum tempo para aprender uma série de chamados de outras espécies, a fêmea que escolhe um macho com repertório maior pode estar simplesmente selecionando uma parceiro mais maduro e experiente, com vantagens para a sobrevivência e a perpetuação da espécie. Quanto mais espécies houver no ambiente, maior o repertório da ave; dessa forma, o canto emitido por uma espécie imitadora é um indicativo das aves ocorrentes em determinado lugar. É bem provável que o maior imitador no Brasil seja Turdus lawrencii ( caraxuê-de-bico-amarelo). Outras espécies conhecidas no Brasil, notórias por imitar outras aves sao o sabiá-do-campo (Mimus saturninus), o gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea) e o corrupião (Icterus jamacaii).
Exemplos de imitações
| gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea) | sabiá-do-campo (Mimus saturninus) | patativa (Sporophila plumbea) |
|---|---|---|
| gralha-picaça (Cyanocorax chrysops) | caraxué-de-bico-amarelo (Turdus lawrencii) | sabiá-barranco (Turdus leucomelas) |
Na maioria das comunidades de observadores e de pesquisadores de aves, é bem aceito que deve haver critérios éticos quanto ao uso de gravações para atrair aves.
Cada observador ou cada acadêmico justificará a necessidade de tê-las utilizado alguma vez. O debate é polêmico e levanta várias questões:
Existem situações em que o playback não prejudica as aves em seu ambiente?
A ciência e a educação necessitam dos possíveis riscos oferecidos pelo playback?
Qual é ou qual deve ser o limite ético?
No Brasil, as Leis n° 5.197, de 3 de janeiro de 1967 (Lei de Proteção da Fauna), e nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais), trouxeram limites de conduta importantes, visando evitar danos às espécies de aves e aos respectivos ecossistemas. Da mesma forma tem sido fundamental a divulgação de Códigos de ética que orientam a conduta dos observadores e dos pesquisadores, como o Código da SPEA de Portugal e da ABA dos Estados Unidos. O Wikiaves compartilha desse esforço e também elaborou um código de ética, que pode ser lido aqui.
Além do uso de playbacks (reprodução sonora), há a interferência quando invadimos o habitat de uma ave, o que também provoca polêmicas sobre a conduta ética.
As aves sempre mexeram com as emoções do ser humano e o fantástico ou o inexplicável muito devem a esses seres emplumados que, dos mais recônditos pontos da mata, lançam os seus cantos diversos com a simples intenção natural de chamar a atenção do ambiente para a sua presença. O homem, na busca incessante pelo conhecimento, ora e meia se esbarra no fantástico para desvendar os pontos obscuros para o alcance de sua época. Mesmo alguns mitos ditos solucionados - como o caboclo d`água da Zona da Mata mineira, que pode estar relacionado à vocalização da mãe-da-lua-gigante - perduram nas sociedades em que surgiram, estando arraigados profundamente na cultura popular.
Abaixo uma lista de lendas, mitos ou seres e situações fantásticas em que o canto das aves se mostram na cultura popular e uma deliciosa citação sobre o pássaro cricrió.
Das profundezas da mata, cantando sem parar pela noite ou mesmo em determinados horários do dia. Procurar não adianta, ninguém vê, e é bom mesmo que não se veja, que não se tenha o mínimo de contato. Matinta Perera (ou matinta-pereira (do tupi matintape're), matintaperera, matintaperê, ou saci (do tupi sa'sï, onomatopeia), mati, matitaperê e pitica (Pará), saci-do-campo, sem-fim, fém-fém, peitica, tempo-quente, peixe-frito (Bahia), e peixe-frito-seu-veríssimo) é uma manifestação agourenta que permeia o imaginário popular devido ao hábito do ser por trás dela - Tapera naevia - de emitir a sua misteriosa vocalização dos locais mais escondidos. Ao menor sinal da proximidade de alguém ou algo que identifique como perigoso para a vocalização, emaranha-se ainda mais na mata deixando assim ainda mais curiosidade e espanto.
De repente, andando na mata, ouve-se um bater de chocalho e não dá outra: pernas pra quem te quero! Eis que, ao passar o primeiro rompante as escamas prateadas se mostram em um galho a frente, pousando: é a fogo-apagou! Em algumas regiões do Brasil a Columbina squammata ganha o nome de rolinha-cascavel devido ao som emitido pelo seu bater de asas quando alça voo. É lembrada também na música popular, nomeando a composição de Sá e Guarabyra Fogo Pagô, que traz os versos:
Fogo pagô que encantou Levou embora Ai, teus murmúrios na memória…
Lenda Tapirapé relatada por Ana Cavalcante Corazolla
O canto é inconfundível:
Não há mulher que não se sinta cortejada ouvindo o canto do Biscateiro. Acredito que as índias Tapirapés mais que todas as mulheres do mundo. Conta a lenda que o biscateiro nasceu índio, na tribo dos Tapirapés, habitando às margens do Rio Tapirapé, bem pertinho do Araguaia. Foi o índio mais lindo já nascido naquela tribo. Admirado reverenciado por todos devido a sua beleza, cresceu malandro e preguiçoso. Seu passatempo preferido era assobiar para as mulheres e conseguir sua atenção. Os homens da aldeia começaram a ficar incomodados e enciumados. Saíam para caçar e o Biscateiro não ia junto. Ficava na aldeia, com as mulheres que lhe cortejavam. Um dia, quando não aguentavam mais a situação, resolveram reunir o conselho dos homens para discutir o que fazer com o Biscateiro e chamaram o Pajé. A primeira sugestão do Pajé foi transformá-lo em um Caetetu ou um veado. Um índio argumentou: -Não podemos fazer isso, ele é nosso irmão. Se for transformado em um animal desses poderá ser morto por algum caçador. - Podemos transformá-lo em uma cobra ou em um jacaré! Os outros acharam que esta também não era a melhor solução, pois o biscateiro poderia morder alguém da tribo. Não tendo mais saída, o Pajé sugeriu: - Então vamos transformá-lo em um pássaro. Será um pássaro pequeno para não servir de alimento, terá penas pouco coloridas que não servirão para enfeites e será difícil de ser visto, confundindo-se com a folhagem da mata. Dessa forma nosso irmão viverá feliz, livre na mata e não nos incomodará mais cortejando nossas mulheres. Assim reuniram toda a aldeia em grande festa e num ritual mágico o índio Biscateiro foi transformado em pássaro. Saiu voando e escondeu-se na mata. Mas não adiantou muito, Mesmo pássaro, até hoje continua assobiando para as mulheres. Não pode ouvir um movimento na mata que dispara seu assobio:Notas: